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Polícia procura influencer acusado de fingir ser garota com câncer e tirar R$ 207 mil de namorado virtual; veja troca de mensagens

Por MSN Publicado em 11/03/2026 07:02
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A Polícia Civil procura o influenciador digital Luís Felipe de Oliveira, conhecido nas redes sociais como Felipe Heystee, após a Justiça de Cotia, na Grande São Paulo, decretar sua prisão preventiva no último dia 4 de março.

O rapaz de 23 anos se tornou réu após ser denunciado pelo Ministério Público (MP) por estelionato eletrônico ao aplicar o chamado “golpe do amor” contra um morador da cidade. Na esfera cível, ele já foi condenado a pagar R$ 10 mil de indenização por danos morais à vítima.

O g1 entrou em contato com a defesa de Felipe para comentar o caso e aguarda posicionamento. Ele tem cerca de 2,3 milhões de seguidores no TikTok e mais 1,5 milhão e 451 mil seguidores em perfis no Instagram.

Segundo a acusação, Luís criou um perfil falso em um aplicativo de relacionamentos, fingiu ser uma jovem de 19 anos com suspeita de câncer e manteve um relacionamento virtual por mais de dois anos para obter cerca de R$ 207 mil de um homem que acreditava ser seu namorado.

'Pague pelo que fez', diz vítima

A vítima falou com a equipe de reportagem.

“Espero que Felipe pague pelo que fez comigo e com outras pessoas”, diz o homem, um geógrafo de 46 anos, solteiro e sem filhos, que tem como hobby restaurar móveis antigos. Ele conta que se encantou pela foto da suposta estudante Luana, de olhos azuis e cabelos longos. Segundo ele, outro ponto em comum era o gosto dela por antiquários — a mesma paixão que ele cultiva.


De maio de 2022 a agosto de 2024, o geógrafo enviou dinheiro à suposta namorada acreditando estar ajudando nos exames e no tratamento da doença. Também pagou aluguel atrasado e até refeições por aplicativos. Foi assim que soube exatamente onde a jovem dizia morar: na Zona Sul de São Paulo.

Em uma das conversas, a falsa namorada escreveu que precisava de R$ 730 para fazer “ultrassonografia, papanicolau (exame para verificar se não tem câncer)” e acrescentou: “lembrei que esse mês não paguei o plano de saúde” (veja foto acima).

Apesar de se tratarem por “amor” ou “amorzinho”, os dois nunca chegaram a se encontrar pessoalmente ou fizeram videochamada. “A pessoa que conversava comigo por mensagens dizia que era muito tímida”, lembra.

Eles falaram por telefone apenas uma vez. Segundo o geógrafo, a voz feminina que ouviu naquela ligação despertou desconfiança de que poderia estar sendo enganado. Outro detalhe que chamava atenção era o fato de a maior parte das transferências bancárias ser feita para contas em nome de Felipe. “Eu achava estranho”, afirma.


Farsa descoberta

A farsa começou a se desfazer quando ele decidiu, por conta própria, fazer uma busca reversa na internet com uma foto que havia recebido da suposta namorada ao lado da mãe.

“A imagem pertencia a outra garota, que estava ao lado de uma mulher. Uma adolescente de 16 anos, com outro nome e que também é influencer”, conta. Ele então entrou em contato com os pais da jovem pelas redes sociais para entender o que estava acontecendo.

“Eles disseram que a filha deles não conhecia Felipe e deram a entender que ele pegou a foto da menina sem autorização e a usou para me enganar”, relata.

O geógrafo já havia registrado um boletim de ocorrência na delegacia da cidade quando transferiu R$ 20 mil à suposta namorada para comprar objetos antigos raros que ela dizia ser da avó e estar vendendo por um preço mais acessível.

“Não recebi os itens. Fiz o boletim de ocorrência por estelionato, mas desisti quando a pessoa me procurou novamente. Eu queria descobrir quem era”, afirma. Depois de perceber que continuava sendo alvo do golpe, pediu que a polícia reabrisse o caso.


Condenado a pagar indenização

A investigação concluiu que Luana, a jovem de olhos claros, nunca existiu. De acordo com os policiais, Felipe era quem se passava pela garota nas conversas e nas redes sociais. Por isso, ele foi responsabilizado criminalmente por estelionato.

Embora contas de terceiros tenham sido usadas para receber parte do dinheiro transferido pela vítima, a polícia entende que essas pessoas não sabiam do esquema criminoso.

No âmbito criminal, o caso ainda não foi julgado. Já na esfera cível, a Justiça condenou o influencer a pagar indenização ao geógrafo — valor que ainda não foi quitado.

Felipe também teve mais de R$ 200 mil bloqueados judicialmente em suas contas. O dinheiro poderá ser usado futuramente para ressarcir a vítima.

“As fraudes eletrônicas se tornaram uma epidemia. A regra de ouro para a segurança digital é a mesma do mundo real: o ceticismo. Desconfie sempre de desconhecidos, sobretudo daqueles que desejam, de alguma forma, obter o seu dinheiro”, afirmou ao g1 o promotor Renan Mendes Rodríguez, do MPSP, responsável pela acusação.


“Antes de efetuar qualquer transferência bancária, converse pessoalmente ou por chamada de vídeo com o familiar ou conhecido que solicitou o envio do dinheiro para assegurar que não se trata de golpe”, acrescentou.

Prisão decretada

O promotor pediu a prisão de Felipe por entender que o influencer também divulgou um vídeo em sua rede social ensinando como aplicar o "golpe do amor". De acordo com Renan, pode haver mais vítimas.

"O denunciado cometeu inúmeros estelionatos eletrônicos continuados, mediante a aplicação do denominado “golpe do amor”, por meio do qual o estelionatário se utiliza de perfil falso em redes sociais e aplicativos de mensagens para iniciar um relacionamento amoroso virtual", informa o promotor.

"A conduta do réu representa grave ofensa a esses princípios pela violação grosseira à boa-fé, base das relações sociais, assim como pela exploração da vulnerabilidade alheia para fins de enriquecimento ilícito", escreveu a juíza Claudia Guimarães dos Santos ao decretar a prisão de Felipe.

A vítima diz que acreditava estar ajudando uma pessoa com problemas de saúde e dificuldades financeiras. Para a Justiça, o influencer explorou justamente essa fragilidade emocional para convencê-lo a enviar dinheiro.

Influencer admitiu golpe, diz vítima

No processo, há prints das conversas entre o geógrafo e o estelionatário. Em uma das mensagens, aparece um texto que sugere que o próprio Felipe admite a fraude:

“Boa tarde, Felipe Heystee aqui. Eu vou mandar meu advogado entrar em contato com você para chegarem a um concesso [sic] e você receber o seu dinheiro”.

Em outro trecho, o falsário escreve: “Então, eu vou te dar um conselho. Erros são cometidos, mas acertos também. Irei concertar os meus, mas eu não tenho medo de você”.

Em seguida, faz uma ameaça: “Se você quiser fama. Eu te darei, nós sabemos que você conversava com muitas menores”. De acordo com policiais, Felipe usou a foto da adolescente para chamar a atenção do homem, que achou estar conversando com uma pessoa adulta, para depois tentar chantageá-lo ao acusá-lo de falar com uma menor de 18 anos.

Numa outra mensagem, o autor do perfil falso afirma: “Posso te garantir que contrato o maior advogado criminalista desse país”.

“Eu jamais me envolveria com alguém menor de idade. Eu planejava um futuro com a pessoa que conversava comigo. Achava que o fato de ela ainda ser jovem poderia me dar filhos. Levar as crianças para a escola, vê-las crescer, entrar na faculdade...”, diz o geógrafo, que tinha 41 anos à época.

Depois do trauma, ele afirma que não pretende mais tentar novos relacionamentos. “Foi minha última tentativa. Não quero mais saber de ninguém. Vou ficar mesmo para tio.”