Brasil

BC decreta liquidação do Will Bank, banco digital do grupo Master

De acordo com o regulador, porém, não foi possível encontrar uma solução para o banco, depois que o Will deixou de pagar participantes da cadeia de cartão de crédito, incluindo a bandeira Mastercard

Por MSN Publicado em 22/01/2026 06:44
.

O Will Bank foi preservado quando o BC anunciou a liquidação do Banco Master, em 18 de novembro, diante da avaliação de que naquela época havia investidores interessados em adquirir a instituição, o que acabou não se concretizando. O regime especial poderia ser mantido por até 120 dias.

A negociação para a venda do banco fracassou porque o principal comprador queria um aporte a fundo perdido -ou seja, sem previsão para pagamento- de R$ 5,5 bilhões do FGC (Fundo Garantidor de Crédito) para adquirir a instituição financeira do grupo Master.

De acordo com o regulador, porém, não foi possível encontrar uma solução para o banco, depois que o Will deixou de pagar participantes da cadeia de cartão de crédito, incluindo a bandeira Mastercard.

Em ato assinado pelo presidente Gabriel Galípolo, o BC justifica a liquidação da instituição pelo "comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse, evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master".

A liquidação é adotada quando o BC avalia que a situação da instituição financeira é irrecuperável. Nesse caso, o funcionamento da instituição é interrompido e ela é retirada do sistema financeiro nacional.

O regime especial para o banco foi decretado na época na tentativa de buscar um comprador, o que minimizaria o impacto da quebra do banco no FGC, fundo formado com aportes das instituições financeiras que garante até R$ 250 mil por investidor, como os CDBs (Certificado de Depósitos Bancários) emitidos pelo Willbank.

O problema, segundo pessoas a par do tema, é que o "dinheiro acabou" e o banco digital não tinha mais como honrar as suas dívidas elevadas. Uma dessas pessoas resumiu o quadro da seguinte forma: as grades foram furadas e a Mastercard disse que não daria mais crédito ao banco.

Como revelou a Folha de S.Paulo na tarde de terça-feira (20), o Mastercard decidiu suspender a aceitação de cartões emitidos pelo Will Bank depois de o banco não honrar pagamentos. Transações feitas por consumidores não foram honradas pelo banco junto a diversos participantes da indústria de cartões.

Além disso, a bandeira executou garantias ligadas a dívidas do Will Bank e passou a deter participações relevantes na varejista de móveis Westwing e no BRB (Banco de Brasília).

Foi a gota d'água para a liquidação. Com essa decisão, já se esperava a liquidação do Will Bank.

Com a liquidação, o FGC deve reembolsar R$ 6,3 bilhões a clientes do Will Bank, valor que soma-se aos mais de R$ 40 bilhões que serão devolvidos a investidores do Master.

O grupo Master detinha 0,57% do ativo total e 0,55% das captações totais do sistema financeiro nacional, segundo o BC. O conglomerado, que tinha o Banco Master como instituição líder, era classificado pelo regulador como de crédito diversificado, porte pequeno e enquadrado no segmento S3 da regulação prudencial -de 0,1% a 1% do PIB (Produto Interno Bruto).

No regime de administração especial temporária, as atividades do banco são preservadas, apesar de seus dirigentes perderem o mandato. No caso da liquidação, o funcionamento da instituição é interrompido, e a instituição é retirada do sistema financeiro nacional. Com o ato, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.O BC argumentou em nota que, quando decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, entendeu como "adequada e aderente ao interesse público" a imposição do regime de administração especial temporária ao Master Múltiplo, "ante a possibilidade de uma solução que preservasse o funcionamento de sua controlada Will Financeira".

A autoridade monetária disse que, entretanto, essa solução "não se mostrou viável", citando que se verificou na segunda-feira (19) o "descumprimento pela Will Financeira da grade de pagamentos com o arranjo de pagamentos Mastercard" e o consequente bloqueio de sua participação.

"Assim, tornou-se inevitável a liquidação extrajudicial da Will Financeira, em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master S.A., já sob liquidação extrajudicial", acrescentou o BC.


O dia 24 de novembro de 2025 foi indicado como termo legal da liquidação extrajudicial da Will Financeira. A legislação brasileira prevê que o intervalo entre a data do termo legal e o dia em que a liquidação foi efetivamente decretada não pode ser superior a 60 dias.

Nesse período delimitado, o liquidante pode buscar na Justiça a revisão de atos que eventualmente tenham sido danosos. O FGC (Fundo Garantidor de Créditos) usa a data da liquidação -dia 21 de janeiro no caso do Will Bank- como base para ressarcir os investidores elegíveis.

O Banco Central informou que continua tomando as medidas cabíveis para apurar responsabilidades nos termos de suas competências legais. "O resultado das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes, observadas as disposições legais aplicáveis".

Criado em 2017 e comprado pelo Master em 2024, o Will Bank encerrou o primeiro semestre com R$ 14,4 bilhões de ativos, um prejuízo de R$ 244,7 milhões e um patrimônio líquido de cerca de R$ 300 milhões, segundo dados do Banco Central.

Uma venda do Will Bank, como antes era esperado, teria o potencial de reduzir as perdas do FGC (Fundo Garantidor de Créditos), que vai pagar até R$ 250 mil a 800 mil investidores de Certificados de Depósito Bancário (CDB) e outros títulos garantidos emitidos pelo Master, somando um total de R$ 40,6 bilhões, na maior indenização já feita pelo fundo.

Na semana passada, a Polícia Federal deflagrou a segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura a atuação de fundos de investimentos que teriam sido usados para inflar o patrimônio do Banco Master.

Essa etapa da investigação teve como alvos endereços ligados a Daniel Vorcaro, dono do Master, a parentes do banqueiro e a empresários, incluindo Nelson Tanure e João Carlos Mansur, ex-dono da Reag –gestora investigada no caso Master e suspeita de envolvimento com o crime organizado. A instituição também foi liquidada pelo BC.

Na primeira fase da Compliance Zero, em novembro, Vorcaro foi preso sob acusação de liderar um esquema que criou carteiras falsas de crédito para inflar o patrimônio do Master e, em seguida, vender a instituição financeira ao BRB (Banco de Brasília). Ele foi solto menos de duas semanas depois e segue monitorado por tornozeleira eletrônica.